domingo, 8 de março de 2015

O milagre da companhia

Quarta-feira, um dia de reunião, uma tarde que seria como qualquer outra tarde, pessoas de sempre, bar de sempre, uma coca-cola aqui, uma cerveja ali, as mesmas vozes, o mesmo cheiro. E de repente ouço: "Sol vem ver o passarinho que caiu aqui" Corri e vi, um periquito australiano, na mão do meu amigo, tremendo todo, uma asa caída, dor e medo estampado nos pequenos olhos. Dei uma ''morridinha', confesso. No primeiro momento, achei que o bichinho tava todo estropiado. Que a asa tava quebrada, e que ele ia morrer ali mesmo, a míngua. E então, agitei o bar todo, gente, vamos ajudar, arrumem uma caixa de papelão, façam furos, me arrumem um pote com água e lá se foi o rebuliço, tudo feito, colocamos a avezinha na caixa, o pássaro ficou estremecendo e aos poucos foi melhorando, e parando de tremer, tomou um pouco de água, e percebemos que a asa não tinha se quebrado, ufa!!! Menos mal, pensei. Ninguém veio reclamar a perda do passarinho fujão, esperamos por quatro horas, e então o trouxe para casa, uma aventura, andar com uma caixa de papelão furada pelas ruas de Sampa, para pegar o metrô. Deus e São Francisco ajudou, consegui vir sentada até em casa, num horário que ainda tem muita gente circulando, muitas pessoas me olhavam. Acho que no meu rosto havia um misto de alegria, de medo e muita ternura ao novo integrante da família, sim, né, já me senti a mãe do passarinho. O adotei dentro do meu coração no instante em que resolvi traze-lo. Já era meu, e meu instinto gigante de mãe se afeiçoou aquele frágil ser, rápido, afinal sou assim, intensa e rapidinha. Cheguei em casa, corri ao mercado, comprei a ração certa para a raça do passarinho. Peguei uma caixa gigantesca, quadrada, forrei com papel branco, improvisei potinhos para água e ração, fui ao quintal, peguei dois galhos da minha pitangueira, para serem os poleiros, mas claro que o passarinho não pulou, ele não tava bem né... Depois disso tudo, fui tomar banho e tentar dormir, dormi mal, claro né, tava com um medo danado, de no dia seguinte o passarinho estar morto, afinal de contas ele havia batido a cabeça na parede e caído no tênis do meu amigo, e acho que isso amorteceu a queda dele, mas mesmo assim, estava machucadinho e eu não sabia a extensão do problema. Dia seguinte, levantei e o bichinho tava vivo, havia comido, me senti mais aliviada. Liguei pro veterinário, segui as instruções, e arrumei uma gaiola emprestada de uma grande amiga, e fiquei paparicando o pobrezinho o dia todo. Dia seguinte, levanto e a pálpebra inferior estava com sangue vivo, do lado em que ele havia batido a cabecinha, não tava escorrendo, mas ali estava um sangue vivo, brilhando no pequeno olhinho da criatura, mais um susto pra mim. Sempre tive medo de pegar passarinho na mão, mas eu já tinha feito isso desde que o trouxe para casa, então o peguei, ele me bicou forte, agradeci, afinal se estava bicando forte é porque tava fortinho. O segurei e coloquei colírio, um que uso da Homeopatia. Um pingo enorme num ''zoinho'' tão pequetito. O coloquei de volta na gaiola e fui trabalhar. Cheguei em casa, primeira coisa que olho, o olhinho, ainda com sangue, dei remédio da Homeopatia. Colírio de novo. Dia seguinte, sem sangue no olhinho. Aleluia, confesso que rezei e derramei uma lagriminha. Afinal meu passarinho que é fêmea, tá ficando bem boa. Hoje, ela deu cambalhota, adora ficar perto das minhas cachorras, dá gritinho de alegria, e faz malabaris no poleiro, e hoje assobiou e andou pelo teto da gaiola, comeu perto da gente, bebeu água perto da gente, coisa que não vinha fazendo, só comia ou bebia escondida pelo pano que cobre a gaiola, como o veterinário tinha me ensinado a fazer. É assim a vida da gente, pequenos detalhes, um animalzinho que Deus fez e me deu para cuidar, afinal ninguém queria o pequeno. Eu quis. Que viva intensamente e em plenitude de saúde, comigo, me fazendo a gentileza da companhia.
Texto: Solange Mazzeto Imagem: Google

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